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dez 02

Ucrânia e sua Rejeição a Pertencer a União Europeia – O que a Mídia Corporativa não Conta

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Contra o “império anglo-sionista”!

Esta semana, a imprensa-empresa ‘ocidental’ só noticiou “manifestações” na Ucrânia a favor da ‘integração’ na União Europeia. Como se algum “povo ucraniano” tivesse saído repentinamente às ruas, em massa, para exigir o contrário do que seu governo fizeram na véspera e que tantos haviam festejado tanto.

Como hoje se vê afinal, as matérias de anteontem eram a festa da manifestação de alguns mais bem informados que não querem saber da União Europeia; e (b) as matérias que os jornalões-emprensas divulgaram ontem e hoje são manifestação de vastíssimos interesses apostados a favor da ‘integração’ da Ucrânia na UE. As matérias ‘jornalísticas’ de ontem e hoje foram vendidas como se fossem fatos e jornalismo, mas não passaram de desinformação ‘jornalística’, informação mal investigada, mal pesquisada e mal construída, pura ânsia de ‘pôr texto’ (qualquer-merda) em imagens espetaculosas

de ‘manifestações’ de meia dúzia de gatos pingados arrastados pelas ruas (e para a fotografia de espetacularização).

Agora felizmente, The Saker tira a surdina do piston e põe as coisas no lugar. Não traduzimos, por absoluta falta de tempo, a maravilhosa introdução sobre a história da Ucrânia, que o postado oferece. Contra o “império anglo-sionista”!

O excerto que aí vai, explica com riqueza de informação o que está em discussão, mesmo na Ucrânia hoje. E como é discutido sobre a ‘anexação’ pela via de um acordo comercial leonino, de um país ainda governado por oligarquia safada, por um bloco continental comercial riquíssimo (que o autor chama corretamente de “império anglo-sionista”), é assunto muito, muito importante, para todos os pobres do mundo. Grande Saker!

NÃO LEIA JORNAIS do grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão). Desligue a Globo.

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Do que realmente se trata?

A resposta curta é que se trata do futuro da oligarquia ucraniana. A resposta mais complexa é que se trata, aqui, do que o ocidente pode ganhar por cooptar a oligarquia ucraniana para a esfera de influência ocidental. Na prática, significa que enquanto o ocidente concordar em manter no poder os oligarcas, o ocidente pode extrair da Ucrânia vantagens realmente grandes, como um mercado para bens da União Europeia, mão de obra barata, a possibilidade de o ocidente plantar forças da OTAN na Ucrânia (sem ter, para isso, de admitir a Ucrânia na OTAN). E, o mais importante: uma garantia muito sólida de que o ocidente poderá ditar seus termos à oligarquia ucraniana que ficará sem alternativa que não seja hiper-obedecer ao que o ocidente exija. Além do mais, o ocidente vê tudo isso como jogo de soma-zero: se o ocidente ganha, a Rússia perde.

Embora absolutamente não seja catastrófico, o rompimento dos atuais laços econômicos que ligam Rússia e Ucrânia feririam mais gravemente a Rússia, pelo menos no curto prazo. Além disso, o ocidente também crê que a associação à União Europeia impediria, desde já, qualquer integração posterior entre Rússia e Ucrânia. Parece-me que isso faça razoável sentido, simplesmente porque nenhuma integração entre Ucrânia e Rússia é ou será possível, enquanto os oligarcas ucranianos que hoje estão no poder lá continuarem.

Qual o real objetivo do império anglo-sionista, na Ucrânia?

Pouco antes de Barack Obama livrar-se dela, Hillary Clinton fez um comentário espantosamente franco sobre quais seriam os reais objetivos do Império no Leste da Europa. Disse que:

Há um movimento para re-Sovietizar a região. Não terá esse nome. Vai ser chamado de União Aduaneira, União Eurasiana e coisas assim. Mas não nos deixemos enganar. Sabemos qual é o objetivo e estamos tentando conceber meios efetivos para conter o movimento ou impedi-lo.”[1]

Simples, clara e direta. Até a expressão “re-Sovietizar” mostra que Hillary e praticamente todas as elites ocidentais, ainda estão completamente empacadas no paradigma de uma Guerra Fria segundo o qual todos os movimentos que os russos façam são fatais e necessariamente ‘do mal’; e que o ocidente e a Rússia estão empenhados em jogo de soma zero. Pela lógica dessa gente, se a Rússia perder, não importa o que perca, o resultado é altamente desejável para o ocidente.

E que melhor modo haveria para o Império – que quer “conter ou impedir” qualquer integração entre Rússia e Ucrânia –, que oferecer à oligarquia ucraniana um acordo de associação com a União Europeia, que nada custaria à União Europeia e que inevitavelmente, dispararia uma guerra comercial entre Rússia e Ucrânia?

Objetivos russos na Ucrânia

Os objetivos russos na Ucrânia são bem claros. Primeiro, a Rússia entende que uma união aduaneira com a Ucrânia beneficiaria os dois países. Segundo, a Rússia também espera que com o tempo, tal união mutuamente benéfica, servirá para desinflar sentimentos antirrussos (sempre ativos e estimulados pelas elites políticas ucranianas) e que a Ucrânia pode vir a ser membro da futura União Eurasiana. Terceiro, considerada a amarga experiência que teve com países da Europa Central, estados do Báltico e a Geórgia, a Rússia espera, sem dúvida, impedir que a Ucrânia converta-se em colônia do Império Anglo-sionista na Europa. Por fim, a maioria dos russos crê que russos e ucranianos são ou uma só nação ou, no mínimo, duas “nações irmãs” que partilham uma história comum e cuja inclinação natural é viver em amizade e solidariedade.

Os objetivos russos na Ucrânia são realistas?

Ironicamente, a Rússia encara exatamente o mesmo problema na Ucrânia, que o Império Anglo-sionista: a Ucrânia nas atuais fronteiras, é criação absolutamente artificial. Praticamente não há quem discorde de que a Ucrânia Ocidental e a Ucrânia Oriental têm objetivos quase exclusivamente opostos. Em todos os planos – da língua, da economia, da política, história, cultura – as partes oeste e leste da Ucrânia são absolutamente diferentes uma da outra. O centro e a capital Kiev, é uma mistura de leste e oeste; e o sul é entidade cultural única, diferente e ainda mais diversa que o resto do país.

Algum estrategista de poltrona poderia sugerir que a solução ‘óbvia’ seria dividir a Ucrânia em duas ou mais partes e deixar que cada parte escolhesse o que bem entendesse, mas essa ‘solução’ tem duas grandes dificuldades: primeiro, partir em pedaços um país artificialmente configurado é coisa extremamente perigosa de fazer (lembrem a Bósnia ou Kosovo!); e segundo, não há absolutamente meio algum de conseguir que o ocidente e seus fantoches ucranianos nacionalistas aceitem essa ‘solução’ (eles insistem até, que a Península da Crimeia seria parte natural eterna da Ucrânia… apesar de ter sido doada por Khrushchev à República Socialista Soviética Ucraniana, em 1954).

Além de tudo isso, creio que se devem necessariamente analisar muito mais a fundo as consequências de uma integração da Ucrânia à Rússia,antes de mergulhar em conclusões. Se de fato, a Ucrânia é uma “grande Bósnia”, fará sentido para a Rússia trazer essa “grande Bósnia” para junto de sua até aqui muito próspera união com Bielorrússia, Cazaquistão e outros países do leste? Não argumento contra a evidência histórica bem clara que mostra que a Ucrânia, a Bielorrússia, o Cazaquistão são partes de um só corpo histórico/cultural. O que estou dizendo é que a parte ucraniana desse corpo está acometida de uma forma muito perigosa de gangrena e que não vejo meio pelo qual a Rússia e o restante da (futura) União Eurasiana poderiam curar essa parte doente.

Embora alguns segmentos da economia ucraniana interessem potencialmente à Rússia, a maior parte é desastre absoluto, sem qualquer chance de reforma. Politicamente, a Ucrânia é um desastre em câmera lenta, onde políticos corruptos combatem uns contra os outros pela chance de pôr as mãos no dinheiro e no apoio dos oligarcas locais e de seus patrões ocidentais. Socialmente, a Ucrânia é uma bomba-relógio que explodirá, mais cedo ou mais tarde; e, embora a Rússia possa continuar a ‘resgatar’ a economia ucraniana com empréstimos sobre empréstimos, a coisa não pode durar para sempre. Por fim, a Ucrânia ocidental é uma placa de Petri onde se reproduzem todas as bactérias da histeria russofóbica, muitas vezes mediante propaganda claramente neonazista, que jamais aceitará qualquer acordo com os odiados Moskals (russos, ou “moscovitas” pelo léxico nacionalista).

O que há de mais assustador, é que a atual configuração da Ucrânia está fadada ao desastre, não importa quem prevaleça – o governo de Yanukovich ou a oposição.

Basta ver o que os ‘liberais’ e os ‘democratas conseguiram no governo dos oligarcas de Ieltsin: a economia russa foi ao colapso, o país quase rachou em várias pequenas partes, ‘chefões’ mafiosos controlavam toda a economia subterrânea, e oligarcas judeus literalmente pilharam a riqueza da Rússia e a realocaram no exterior, enquanto a imprensa-empresa estava ocupadíssima convencendo o povo russo de uma quantidade imensa de mentiras e delírios. Hoje, exatamente o mesmo tipo de gente está comandando o espetáculo na Ucrânia.

A grande diferença

Se examinar o que aconteceu nos últimos 20 anos, vê-se logo que a Ucrânia meteu-se no atual pesadelo; e que Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão saíram-se muito melhor. A explicação passa por três palavras: Nazarbaev,[2] Putin, Lukashenko.[3]

Pus Nazarbaev em primeiro lugar, porque sempre foi a favor da integração com a Rússia e seus aliados – o Cazaquistão jamais quis de fato ser independente e foi literalmente empurrado para fora por Ieltsin e seus aliados ‘democráticos’ Kravchuk e Shushkevich.

Putin só apareceu na cena política uma década depois de Nazarbaev ter tentado e feito tudo que pôde para manter um país pós-soviético único. E Lukashenko é personalidade complexa e excêntrica, que segue política estranhíssima em relação à Rússia: quer integrar a Bielorrússia com a Rússia fortemente orientada para o mercado, ao mesmo tempo em que mantém a Bielorrússia, economia e sociedade, numa situação de país “neo-soviético”.

Justamente pelas muitas diferenças que os separam, Nazarbaev, Putin e Lukashenko emergiram como três poderosas figuras que conseguiram pôr sob controle os respectivos oligarcas locais e, assim, impediram que seus países fossem convertidos em colônias anglo-sionistas. Mas na Ucrânia não emergiu nenhum real líder local: todos, absolutamente todos os políticos ucranianos são piada, perfeitos fantoches nas mãos de interesses privados.

“Escolha civilizacional” para a Ucrânia?  E vitória de Pirro para a Rússia?

Há quem na imprensa-empresa ocidental, esteja apresentando a decisão de Yanukovich, de descartar quaisquer outras negociações sobre a associação à União Europeia, como enorme vitória estratégica para Putin e a Rússia. Pessoalmente, discordo. Embora seja verdade que graças a essa decisão Yanukovich conseguiu adiar o colapso da economia ucraniana, o movimento não passa de tática de adiamento, sem qualquer modificação substancial. Além do mais, por mais que seja vital para a Ucrânia não romper seus atuais laços econômicos com a Rússia, o mesmo não é verdade para a Rússia, sobretudo no longo prazo. Claro que um colapso econômico da Ucrânia seria péssimo também para a Rússia, que não precisa de seu vizinho gigante despencado para um “cenário bósnio”, com o perigo da Rússia ser também arrastada no turbilhão, o que quase inevitavelmente aconteceria. Sim, mas… ter conseguido evitar o desastre iminente na Ucrânia não é bem o que se pode chamar de “vitória estratégica” para Putin.

Pode-se argumentar que a melhor opção para a Rússia seria tomar uma tesoura gigante e cortar o mapa ao longo da fronteira entre Rússia e Ucrânia, extrair dali o país e realocá-lo em algum ponto no meio do Oceano Pacífico. Não sendo isso possível, a segunda melhor coisa a fazer seria a Ucrânia se autorrecortar em seus componentes naturais e integrar a Ucrânia do Leste à União Eurasiana. Infelizmente, essa segunda via é tão impossível quanto a primeira. O que resta então para a Rússia? Qual a opção “menos ruim”, da qual a Rússia pode tentar fazer o melhor uso possível? Exatamente o que está fazendo hoje: tentando impedir um colapso total da economia ucraniana, ao mesmo tempo em que faz votos para que apareça por lá algum “Putin ucraniano”.

Um “Putin ucraniano” teria de ser alguém cuja prioridade absoluta fosse varrer do país os oligarcas ucranianos; imediatamente depois disso, teria de indicar claramente aos anglo-sionistas que não são

bem-vindos, com suas ambições de senhores coloniais; e em terceiro lugar, trabalhar para conseguir o melhor acordo possível para o povo ucraniano, numa futura União Eurasiana. Até aqui, não se vê nem sinais de que figura desse tipo esteja emergindo na Ucrânia.

Em resumo, sim: a decisão de último minuto, pela qual Yanukovich mudou de ideia e rejeitou a associação de seu país à União Europeia é boa notícia para a Ucrânia e para a Rússia, mas não se pode dizer que seja ‘vitória’ para Putin ou para a Rússia.

Primeiro, eu não descartaria completamente a possibilidade de que Yanukovich mude novamente de ideia (é homem sem princípios ou valores e muda de ideia como muda de camisa). Segundo, já vimos que o Império está em surto alucinado de raiva e fúria por conta do recente revés que sofreu; e EUA e União Europeia não pouparão esforços para orquestrar outra revolução em Kiev, Ucrânia. O mesmo vale para a oposição ucraniana, que receberá agora quantia imensa de dólares do ocidente, para criar o maior caos possível. Quanto ao povo ucraniano… só lhe restará a opção de se manifestar em pesquisas de opinião que lhe perguntam a pergunta errada.

Por fim, enquanto a atual oligarquia ucraniana permanecer no poder, não há como alimentar esperanças de qualquer melhoria significativa, nas condições de suplício em que vivem a Ucrânia e seu povo.

Referências:

[1] http://www.ft.com/cms/s/0/a5b15b14-3fcf-11e2-9f71-00144feabdc0.html#axzz2lZo7XGqU

[2] Nursultan Äbişulı Nazarbaev, presidente do Cazaquistão, eleito em1991 e reeleito em 1999.

[3] Aleksandr Grigorievitch Lukashenko ou Łukašenka, presidente daBielorrússia, eleito pela primeira vez em 1994 e várias vezes reeleito.

Traduzido por Vila Vudu

Revisado por: Jahaísa e Admin

Fontes:

The Vineyard of the Saker: Ukraine’s “civilizational choice” – a Pyrrhic victory for Russia?

Rede Castor Photo: Ucrânia deu um pé na bnda do ocidente

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